O complexo de super-heróis

Por Deise Marques

Diretora d’O Jornal Madalena SP

 

 

À sombra de Nelson Rodrigues observamos que muitos intelectuais buscaram associar o Mundial 2014 com o “complexo de vira-latas do brasileiro”, diagnosticado pelo renomado jornalista, na pulsante década 50, quando a TV em preto e branco surgia no país e a imprensa nacional empresarial sedimentava-se. Naquela época, todo brasileiro já era “técnico de futebol”, porém, hoje é bem mais que isso. Podemos dizer, com o mesmo exagero, que todo brasileiro é jornalista, psicanalista, filósofo; lemos mais e falamos de tudo – e publicamos. Somos lidos “até no exterior”; os aeroportos estão em expansão, viajamos mais. Os brasileiros gastam atualmente mais dólares no exterior do que os estrangeiros que visitam o Brasil. E eles babam pelo nosso metrô, onde até recebemos noções de inglês! As nossas antigas ferrovias foram quase todas abandonadas e o trânsito de carros, motos e helicópteros aumentou. Em junho de 2013 o Brasil inteiro foi às ruas, em manifestação espontânea, sem líderes, deixando nossos governantes perplexos; e no segundo semestre de 2014 teremos um plebiscito e uma eleição, oxalá mais conscientes.

 

Nós continuamos a ter esperança, a gostar de festas; continuamos afetivos, alegres e sedutores. Mas definitivamente, o povo do Brasil de 1958 não é o mesmo de hoje. E o futebol, tampouco: já ganhamos cinco títulos e estamos rumo ao hexa. As mudanças foram profundas de lá para cá: hoje, nossa nação é governada por uma mulher ex-guerrilheira; o STF brilhou sob o comando de um Magistrado negro que não se rendeu ao ex-chefe da nação (um ex-operário e quem lhe indicou para o cargo) e encarcerou corruptos e corruptores amigos dos atuais poderosos. A ‘classe C’ somou-se à “classe média”; muitos sindicalistas e jornalistas estão no poder, ao lado de mais médicos (com perdão pelo trocadilho, contudo esta é uma mudança na área da saúde a ser registrada: médicos cubanos trabalham oficialmente em nosso país, para “atender a demanda”), engenheiros e políticos profissionais, em todos os escalões e esferas de governo; os nossos melhores ‘garotos da bola’ estão, ora vejam só os nossos guris: contratados no exterior e ganhando milhões. Eles vestem as novas camisas sem o menor complexo de nada, assim como a “Global city the land soccer”, veste o novo slogan publicitário da ‘nossa São Paulo’ para turista ver (“Cidade global-território da bola”). Hoje, a internet já é de quase todos os brasileiros e os profissionais da imprensa estrangeira podem ajudar a nos esclarecer, sem intermediários, sobre a corrupção brasileira, em especial agora na Copa da Fifa*.

 

Fato é, pois, que o futebol continua a ser um esporte que mobiliza a população, como a presidente apita. O “problema” é que o torcedor do século XXI assimila que a Inglaterra perdeu a taça, mas voltou para a casa com a economia do país em ordem. Assim como sabia que o Brasil venceria Camarões de goleada (segunda-feira, 23 de junho) e apenas decidiu seguir aquele ditado do “relaxa e goza”, já orientado, em outra ocasião, pela ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, quando era ministra do turismo: “relaxa e goza que depois você esquece todos os transtornos”. E, agoraecoou: “já que a copa está aí, e o dinheiro já foi gasto, vamos aproveitar os feriados, beber, paquerar, rir um pouco e torcer para o Brasil”.  Os transtornos ficaram. Sempre. Agora, o esperto brasileiro já conhece as regras de todos os jogos e a vida como ela é… Entende que ele evoluiu, mas as estruturas governantes ainda não. Os velhos políticos dividem o poder com os novos e eles até descobriram uma “ala esquerda no PMDB” e uma “direita no PT”.

 

Por tudo isso, intuímos que o grave “problema psíquico”, atualmente, é localizado nesta camada ‘híbrida política-partidária’ que manda no país, apoiada pelos mesmos aparelhos ideológicos do Estado e da indústria cultural de antes, incluindo os que se submetem a eles, quando enxergam erros, mas não os apontam. Essa “nova alta boa sociedade” é quem padece do que podemos diagnosticar de “Complexo de Super-heróis”, fortes, poderosos, salvadores do mundo; age como se os brasileiros não fossem nada sem ela, uma mera massa incapaz de decidir até como educar seu filho em casa. Sentem-se heróis quando perseguem e prendem mais jovens estudantes e trabalhadores,  que bandidos, quando, em verdade, são impotentes para ouvir e dialogar com os que discordam de suas políticas e para extinguir a corrupção que impede o aprimoramento do sistema penitenciário. A “nova alta boa sociedade mandatária” sente-se o próprio deus, onipotente, por isso a necessidade, oportuna, em promover ataques irresponsáveis às religiões, instituições estas que, ao menos aqui no Brasil, fazem o que os governos e a sociedade deveriam fazer: educar e resgatar pessoas. Todavia, o “Complexo de Super-heróis” não é apenas uma questão narcisista que provoca miopia intelectual e social em seu portador e seguidores, ele traz consequências perversas que hoje tortura mais a alma que o corpo do ‘cidadão que pensa e sente’ (em todas as classes sociais) mas que permanece, ainda, “um forte”. À sombra de He-man, o brasileiro declara para si neste Mundial 2014: “eu tenho a força e já sei como a vida é…”. Agora, queremos descobrir como ela pode ser. O plebiscito e as eleições poderão ajudar o brasileiro a erradicar mais esse complexo.

 

Por Deise Marques

Diretora d’O Jornal Madalena SP

www.omadalenasp.com.br

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